● Só pra dizer que.

Fala alguma coisa sobre casamento que eu te arrebento os dentes. Esses dentões de quem visita o dentista regularmente. Você é tão certinho que às vezes o inevitável de ter que pensar em você dá dor de cabeça. São os teus olhos ou os meus que deixam as coisas assim, repugnantes demais? Pessoas e coisas, cultas demais, cu doces demais, se levam a serio demais, alternativas demais... pára, isso arde, e meu olho já tá coçando, porra. E as propostas de individualismo ao extremo: salve-se quem puder, já começam a te chatear e a me envergonhar. Você diz e é verdade, eu sou fria demais para exigir aqui e agora o que há de melhor em você. Mas é que eu me preocupo demais com a sua boca, e o que possa sair dela direto ao meu coração. Não é que eu não ligo, eu só não aprendi a demonstrar o quanto eu me importo: com tudo, com todos – eis a sua decepção. Mas elogia o meu sorriso torto, porque hoje é sexta-feira, dia perfeito para olhar nos olhos e dizer que. Hoje é sexta-feira, dia de dormir – sozinha - mais cedo.

● Um suspiro e um beijo.


(para ler ouvindo A Night Like This – The Cure)


- Ai, me dá uma pontadinha gostosa no peito toda vez que ouço Cure.

- É porque tu gostas de sentir tristeza, né?

- Não. Eu gosto de sentir saudades...

- Imagine quando você for velhinha e ouvir músicas assim?

- Eu vou viver de suspiros na minha confortável cadeira de balanço

- E ao invés do tricô ou crochê, mp3?


● acabou?


certeza eu tenho
e de poucas coisas na vida
faço-me
por você eu invento possibilidades
"vou pescar um bacalhau bem grandão pra ti”
e quem dirá que é impossível?
compramos nossos sonhos sem desconto
e as paixões de boteco - "tá sujo mas tá massa" - à vista
porque de sentimento nossos bolsos estão cheios
e que falte tudo, meu amigo
menos a farinha.



Para um dos grandes amores da minha vida: JH

● Qual a parte do seu corpo mais bonita?

Conversando com um amigo esses dias sobre bundas e peitos, tive uma das opiniões masculinas mais esclarecedoras em relação à bunda ou cérebro. Mas não é sobre isso que quero falar. Então, qual a parte mais bonita do seu corpo? Não é a parte que as pessoas dizem ser a mais bonita, é a parte que você mais gosta, que mais te agrada, ou até te excita mesmo. A minha parte escolhida é única, eu nunca vi beleza nessa parte em outras pessoas, por isso é a minha preferida. Gosto de outras partes, mas sempre tem algo ali ou aqui que eu mudaria. Mas a tal parte que mais gosto, não. Não mudaria nada. E nem tatuaria. Essa parte não é nenhum segredo, eu só não ando é espalhando por aí, fazendo exposição da minha beleza particular. É tão delicada, tão sutil, tão minha que não há espaço para banalizações. Poucos são aqueles que reconhecem uma beleza não pública. É uma tenuidade que deve ser descoberta casualmente, num comedido levantar de vestido, na singularidade de uma carícia delicada ou num toque diligente de alguém que, olha e percebe, assim, por acaso. Estou isenta de modéstia, com licença e obrigada. Elogios de frigorífico já me cansaram. Queria mesmo era que notassem e elogiassem, quem sabe, essa tal parte que me refiro. Mas tudo isso não é uma charada e nenhum tipo de provocação lançada para quem me ler. Mas confesso, não nego, eu queria sim que alguém tomasse parte dessa minha tal parte.

● Do lado de cá.

Fala comigo, porra! Toca no meu braço, dá só um sorriso, só um e eu juro que me declaro. Mas dê um sorriso daqueles, como no dia que eu estava lá, e sempre, só observando lá do alto você falar com aquelas pessoas. Você de costas, eu mirando seu pescoço branquinho, alvo fácil para o meu desejo, achei você tão perfeito que desejei sentir sua respiração. Então você se virou e sorriu. Eu pensei que aquele sorriso fosse meu. Não era. Mas guardei pra mim e comi com farinha quando cheguei em casa, e mais, ouvindo Let Me Put My Love Into You. Você ia gostar de ouvir AC/DC comigo, e cantaria ou tocaria, quem sabe, olhando nos meus olhos, depois de um beijo cinematográfico, desses que o personagem espera o filme inteiro para atingir seu objetivo. Descobri tanta coisa sobre você e agora sei até das suas preferências, e te digo: a gente se mistura bacana. Já percebi que me observas quando eu mexo o cabelo, fazendo um charminho bobo pra ver se seus olhos me seguem. E nem sabes, mas meus cabelos esperam ansiosos por um toque seu. Já falei do abraço exclusivo que separei pra você? Pois é, nós estamos aqui, esperando sua chegada. Eu sei dos seus sons e das suas cores. Sei da sua bagagem, mas eu não me importo. Vai dar tudo certo, paixão assim rola até mais tarde. E eu sei também que amanhã ou depois você vai sentar aqui do meu lado e eu vou dizer assim, “olha só esse texto que eu escrevi enquanto você andava distraído”.

● Infância de plástico.

Enquanto a senhora da cara ranzinza fazia a janta, Antonia aguava o terreiro, tudo em nome da saúde do menorzinho, que sofria de asma, e a poeira da parte externa da casa, no entanto, era-lhe fatal. Antonia era a filha do meio, e a senhora de semblante amargurado do inicio é sua mãe. O quarto personagem é Sebastião, o irmão mais velho. Antonia sente uma raiva descomunal da diferença no trato que a mãe designa aos filhos, a pobre se acha injustiçada, mas, resignada, acaba por absorver a herança do cuidado materno que a mãe lhe deixou em prol dos irmãos. Acorda é cedo pra passar o café e fazer o cuscuz, quando tem. Sebastião acorda é tarde, e ai do café se não estiver passado! Esse divide o dia em três partes: café, almoço e janta. E só não divide em quatro partes ou mais, porque a vida ali é tão humilde que dói nos olhos e no estômago. Dormem todos no mesmo quarto, a não ser o irmão mais velho, que precisa de uma certa privacidade, pois “já é homem feito”. As redes eram próximas uma das outras, dava-se para sentir a vibração dos corpos, seja de cansaço, depois de um dia de faxina pesada ou de tristeza pela vida: com suas perdas constantes e ganhos zero. Eram tão eles e tão próximos, mas nunca haviam compartilhado sonhos. Ate o dia em que Sebastião deu um mói de taca na mãe e o caçula desatinou um choro de pavor, e os olhos de angustia que renunciariam a qualquer criança, convenceram Antonia a tapar a goteira enorme que havia em seus olhos. E foi assim que disse adeus a uma infância que nunca foi dela e nem dos seus.

● Desahogo

Fatigada. Esperando a sessão incômoda de julgamentos intrometidos cheios de falsas razões, que é tão torpe quanto a minha covardia oportunista. Perdi meu chinelo outra vez, e não adianta ficar xingando achando que uma boca suja vai dar jeito em tudo. “Vai descalça, caralho”.

Eu esperei pelos pêsames simbólicos, mas é tudo tão normal e cotidiano que nem existe espaço para espetáculos circenses.


“Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver a amar.
Amor divinizado que se acerca.
Amor divinizado que se va”


Esses versos grudaram na minha mente, e acho que eles ainda me serão muito úteis...

Porém: no estar el horno para bollos. Sim, expressões espanholas me encantam. Mas é tudo sobre os versos do Neruda que nada tinha a ver com os teus olhos. E é tudo sobre a prática do meu espanhol vagabundo, querendo ser alvo de um sorriso todo derretido de quem me convém.

● Sobre os canudos coloridos da lanchonete/ sobre a vida alheia

Gosto quando você faz biquinho pra sugar o suco de uva que tanto gostas. Apesar de eu achar patético o fato de você desperdiçar um certo tempo procurando um canudo na cor vermelha. Eu te acho tão fútil, garota. És como uma Lolita, coberta de exageros sem nunca se tornar única. E eu já disse tantas vezes pra você enxugar a sola da sandália no tapete que fica bem na entrada, porque eu odeio a sujeira que você deixa na minha sala. Não sou teu pai, não vou te comprar a Melissa da moda, mas fica comigo que a gente se pega até umas horas. Eu me chamo José. Não tenho Y, K ou W no nome, que nem você, com esse nome exagerado e de extremo mau gosto. Mas eu já disse que adoro o clima da tua cidade? Porque a manga curta da tua blusa me permite teus braços e a minissaia me permite tuas pernas. Nada de golas altas, se ligue. E vê se aprende a falar devagar, é ridículo o desespero da tua fala. Mastiga de boca fechada e conversa olhando nos meus olhos, tenta passar segurança sobre quem você é e o que você quer, beleza? To indo nessa, te ligo mais tarde.


É tudo tão automático e ilustrativo.

● Cérebro & Coração

Se for pra dizer algo importante, não digo. Fico bem aqui, quieta. Com o silencio que incomoda. Sem falar de paz interior, como os filhos da puta que te cercam. Ternura pelos gatos vira-latas das esquinas, e só. Mas se for pra falar de amor, eu topo. Falo de flores e polens. De cheiro verde e das cartas que nunca mandei. Da terra que nunca cultivei e das ervas que nunca colhi. Fé & Decepção. Esperança & Ilusão. Sentimento & Tesão. E tudo acontece ao redor da gente, mas nossos umbigos são tão mais interessantes do que as percepções a cada esquina fedorenta. Lembra da última vez que tomou uma dose de gentileza? Não é uma questão de amor ao próximo e nem da base da autopromoção: hastear a bandeira da filantropia. Eu to falando do presente, de existência, de consciência, irmão. Falo do suor que exala vida, das veias que levam sangue ao teu coração, dos sonhos que nunca envelhecem, do sexo sem amor – mas cheio de desejo, de orgasmos, da excitação ao raiar do dia, do sushi ou o Petit Gateau que você paga pau, do ovo frito na marmita do pedreiro ou do arroz com feijão de cada dia. Saca? Tudo é vital, ou não.

● Assalto

Começa com um susto. Olhos estufados quase saltando a face já pálida. Diante de uma tragédia iminente, inicia a sessão do famoso filme em câmera lenta com duração de segundos de uma vida toda. Sua memória percorreu todos os labirintos possíveis do seu cérebro. Em um deles estava o dia em que aprendeu a andar de bicicleta. O joelho ferido evidenciava a persistência que o Merthiolate evidenciaria como dor mais tarde. Lembrou de como sentia vontade de brincar de boneca quando via sua irmã brincando com as amigas da escola, mas sentia vergonha e a repressão atemporal de uma sociedade inteira pesando em suas costas. E então quando ninguém mais estava por perto, penteava os cabelos da Barbie encantado com o fascínio que a boneca sempre exercera nas mentes infantis. Pôde sentir de uma forma sinestésica o cheiro do bolo de cenoura que sua avó materna fazia. Sentia falta do carinho e de palavras doces vindas dela, mas o bolo de cenoura feito especialmente para ele com a única finalidade de evidenciar amor, suplantava qualquer carência afetiva. Lembrou do dia em que descobriu a inexistência do papai Noel e de quando teve o primeiro orgasmo. Recordou a felicidade que sentiu no dia do resultado do vestibular no qual foi classificado. Pensou em deus. O medo já havia paralisado seu corpo, em questão de tempo, sua mente também. As farras com os amigos, a musica preferida, o abraço de sua mãe, os sermões do pai, o amor mal resolvido do passado, a viagem dos sonhos, o livro de cabeceira, o mestrado não concluído e naquele momento apenas a frouxidão da energia do poste como testemunha. Repetiu três vezes o nome de deus enquanto desviava o olhar dos olhos vermelhos de ódio à sua frente. Ódio vermelho. Cano metálico & gelado pressionando violência contra sua cabeça. Mãe - o último nome que proferiu.

● Inerente

Que tipo de desespero é esse teu que me deixa perdida e pensando em te dar conselhos a cada luz da vida para que não me sigas eu digo e repito não vá se perder por aí como no dia em que éramos paisagem e enfeitávamos vidas e manchávamos de vermelho qualquer opção de céu brilhando haveres de ontem e de hoje de manhã acordaremos descansados sem o peso de pronomes possessivos os que amam e acabam tomando na gramática

● Ou não.

Eu sei como fazer seu nariz sangrar. Passei horas olhando pra ele, calculando o ponto exato de socar e quebrar e fazer sangue. O seu coração eu não conheço tão bem, mas já o vi, e ele é tão bonito... Ainda mais quando fica exposto. Mas você odeia exposições. Um murro na sua cara e te acerto em cheio. Um soco no seu estômago e te deixo sem fôlego. E se você gritar de dor e chorar, não me importo, a culpa é sua por não deixar seu coração se exibir nu na web cam pra mim.

● Ashes to Ashes

Aquela parede sempre me cansou. Se eu pudesse renomear as cores, bege se chamaria “nada”. Que cor mais sem graça! Eu teria pintado a parede de vermelho. Teria colocado uma mandala branca bem no meio. Mas o tempo está voando, e eu também. Estou sentindo um prazer enorme de ser eu. Esse prazer é incomparável. Tenho me amado tanto, sabe? Noites clandestinas me provocam uma excitação incomum. Minha serotonina vai bem, obrigada. Não é o que podemos dizer “OH! Que serotonina foda”, mas dá pra quebrar um galho bacana.

Ceder a cadeira a uma pessoa idosa tem sido a atitude mais humanitária da qual sou capaz no momento. Tudo bem. Mas eu sou melhor do que você: adquira já essa ideia.

Sem terra, sem lei e sem dinheiro: vai um sonho aí? Escolhe um, divido em até 3 vezes! Escolhe que eu deixo aquela saudade de castigo no canto escuro da sala.

E todo mundo observa de longe minha perfeita harmonia e essa despreocupação que me alivia e te irrita e te irrita e te irrita. Rumores! Rumores! Sobre a minha distração, que é só uma ressaca non grata, e a goma de mascar que nada mais é do que as letras do Bowie, tantas vezes mastigadas por mim. Quem se importa? Acende um cigarro de paciência e enche esse copo todinho com amor próprio...

● Altere seu status e sua foto de exibição aqui.

Espera só um minuto. Quer assistir tv? Leia essa revista por enquanto. Na volta te trago um chá. Gosta de chá verde? É o meu preferido. Coloco mel e limão, te sirvo gelado. Espera, já volto. Ainda temos muito que conversar. Eu viajei muitas horas pra enfrentar do teu lado o frio de várias madrugadas adentro. Mas é sério, eu não demoro. Vou só aqui resolver um negócio. Quando eu chegar, vou te revelar coisas íntimas não confessáveis até a mim mesma. Espera? Eu fiz compras, acho que dura mais de um mês. A minha fome eu só mato quando chegar, depois de reconhecer a estrada que deveríamos seguir. Não corta o fio, eu volto num instante, tá? Depois podemos gritar, sangrar, comprar café, chocolate, cigarros, drogas e balões. Espera! Eu te preparo um jantar. Desfio nossas conversas e coloco um pouco de corante nessa história. Agüenta firme aí, é só o tempo de diluir essa paixão em litros e litros de água, vai que ela se transforma em amor depois de 3 minutos e a gente nem sabe...

● Dramalhão

Esse não é mais um texto falando sobre a minha existência-tragicômica-produtiva&rentável, dessa vez o assunto é minha inexistência fantástica. E começa com uma pergunta bem pessoal e direta: Por que diabos você foi atirar em mim? Não, você não foi covarde. Pelo menos o tiro não foi pelas costas. Eu vi tudo. Vi você limpando a arma e mordendo os lábios enquanto treinava a mira. Mesmo assim fiquei estática, vítima da minha condescendência. Quando você me acertou em cheio, eu fingi estar morta. Fiquei assustada com o sangue que marcava a sala do apartamento, que eu mesma decorei, enquanto você me arrastava. Sim, eu tive que me fingir de morta para enxergar o quanto você é calculista. Olhos fechados segurando lágrimas. Sobrevivi, mas mesmo assim, morri para muita coisa que minhas mãos não querem mais alcançar. Mas graças a você eu inexisto muito bem agora. Tá, você sempre soube, meu senso de humor é independente. Aliás, você sempre invejou a facilidade que eu tenho para fazer piadas que você nunca entende. Saiba: eu também te subestimo. Dê meia volta. Cuide-se.

● Independência ou morte

Aconteceu. Vamos lá, dê-me um exemplo de fuga. Fugir de nós mesmos. Tenta, você sabe muito sobre isso. Um sono sem sonhos e um despertar confuso. “Não está acontecendo nada demais”. Entendo o clichê de que amanhã é outro dia. É por isso que eu me desbasto: Nada de planos. Não diga nada a ninguém e não seja meu. Parece até que a gente se entende, se gosta ou se completa. Mas na prática, não há tempo para mais nada. Nessa eterna contradição, espero, de verdade, que seja um sectário da minha mais nova religião, o pessimismo.

● Silêncio na platéia

Ninguém nunca disse que seria fácil. Mas a esperança de cor verde sempre esteve em algum canto da casa. E no fim, era apenas um inseto sem possibilidades para milagres. “Não posso fazer mais nada”. E assim foi dito o adeus mais difícil que esses textos já relataram. Sim, era eu mesma, e aquela vontade de ir embora também me pertencia. A sensação de dever cumprido sempre elevou minha cabeça, dando mais destaque ao meu nariz prepotente. E foi assim que deixei um mundo que eu não podia chamar de meu, porque ele era “nosso”. A força magnética e invisível que sempre me puxava para trás, dessa vez, falhou. Sem medo, delíquio ou dores físicas no peito, parti. Melodias tristes foram substituídas por um rock barulhento.
"Não volto", direi quantas vezes for preciso, só para que não te enganes. Não carrego mais declarações de amor a serem feitas pelas pontas dos dedos e nem frases amáveis na ponta da língua. Pensou mesmo que um último beijo me faria mudar de opinião? A culpa foi minha, por ter te dado o poder de subestimar minhas decisões. Era amor ou era genérico? Talvez fosse amor mesmo, pois paguei caro por ele. Mas apesar do preço alto, abri mão. Deixo-o às cadelas de restaurantes - famintas pelo restinho que sobra nos pratos alheios.
Mantenha-se fora do meu campo de visão. Vou descansar meu olhar na paisagem mais bonita que eu encontrar. Fumarei o cigarro mais forte que achar, e darei o trago mais intenso que eu for capaz, porque cada um sente a vida pulsar da maneira que lhe convém. Não se preocupe comigo, as feridas da minha própria decisão já estão cicatrizando, e só não estão totalmente curadas porque às vezes eu cutuco, descasco e elas ficam abertas dentro de mim, porque masoquismo, vergonhosamente, também faz parte da minha personalidade. E quer saber? Esses olhos aqui só estão marejados por causa do cisco que você nunca mais vai soprar.

● Sobre os meus 21 anos

Eu estava ali sentada no banquinho do shopping esperando por alguma coisa que ficou esquecida. Só sei que eu estava ali, sentindo-me cansada, pois já não tenho a disposição de outrora para bater pernas. Mesmo consumida por um tédio constrangedor, percebi a chegada das alunas de um colégio tradicional da cidade.

Sensualidade precoce e trejeitos de mulherzinhas emergentes. Elas chamavam atenção de todos, com seus cabelos longos e escovados, as bochechas rosadas sem naturalidade alguma, mochilas coloridas e pirulitos em formato de coração que também contribuíam com o Espetáculo das Risadas Juvenis. Gritinhos eloqüentes e beijos e abraços e disparos de flashes de câmeras digitais. Parecia um atentado à minha velhice precoce, ao meu aborto à juventude ainda vigente.

Provocação do destino ou não, uma das garotas que formavam o grupo das adolescentes pediu para que eu tirasse uma foto da turma toda. Eu: expectadora da juventude alheia. Nem figurante, nem coadjuvante... Expectadora! Um resquício de tristeza me abateu profundamente enquanto eu lembrava o colorido dos meus 15 anos. Não que eu tenha me tornado uma pessoa amargurada, até porque amor aqui transborda. Mas eu queria aquela leveza de volta, queria ter que me preocupar apenas se o carinha bonitinho do colégio me notaria ou se essa sandália combina com aquele vestido. Ao invés disso, a gente cresce e fica sério. Conversas sobre política, conspirações mundiais, concursos, mestrados... Fica tudo cinza!

Mas nem tudo é tão ruim que não possa piorar ou melhorar, pois de tudo que aprendi, a lição mais valiosa que a maturidade me trouxe foi a de ter a capacidade psíquica de entender que: jujuba não alimenta, chocolate engorda, refrigerante dá celulite e o departamento de doces do supermercado só vende coisas supérfluas.

● Dúbio

Frio no estomago que não cessa. Mãos frias que expressam ansiedade. Alucinações em forma de sonho. Exagero no sentimentalismo barato só para falar de ti e lembrar do teu sorriso cínico. O sorrisinho debochado que ainda me afeta. As velhas piadas. O velho joguinho de gato e rato. Você tentando não ser rato. Eu sem o meu papel de gato. Penso em ti e me sinto desconfortável com esse sentimento. Escrevo sobre o meu desconforto sentimental e me conforto. Acho que a excitação não está em sentir, mas sim em escrever. Talvez eu devesse mesmo escrever mais e sentir menos. Mas minha paixão não é prosa, nem conto e nem poesia. Não tem nome, nem rima, nem métrica. São frases soltas, sem pretensão, introdução ou conclusão. É só confusão. Como você dentro de mim.

● Elianne e o sonho do amor inatingível

É triste ver como Elianne se expõe. Sua vida é um showroom de autopromoção. “Eu ouço isso, eu assisto isso, eu leio isso, eu acredito nisso”. Ela não pára. Compre batom! Compre batom! Compre batom! Compre Elianne!


É como um comercial com efeito de alienação.


Elianne quer fumar maconha e transar ouvindo rock em nome de Krishna enquanto pede a Jesus Cristo a proteção divina. Sim, ela acredita na própria farsa. Não pertence a ninguém porque ninguém quer pertencer a ela. Ninguém quer levá-la a sério, porque pagar de hippie em dias atuais e falar de misticismo sem propriedade alguma, com a única finalidade de socializar a própria vagina, é uma piada.


Piadas não devem ser levadas a sério.


Elianne é uma pobre nordestina, nascida no interior bravo do Piauí. A face seca revela uma velhice precoce. Não se vê beleza e nem o frescor de uma moça jovem. Até poderia ser a Macabéa de Clarice, mas, falta-lhe ingenuidade para tal afirmação. O certo é que assim como Macabéa, Elianne também é um “parafuso dispensável” na sociedade. Elianne não sabe o que é o amor, porque o mais perto que chegou disso foi dos restos de alguma outra mulher. Ela rasteja pela sobra dos outros. Humilha-se pelo resquício de atenção que lhe é oferecido e contenta-se em ser um personagem descartável na vida de qualquer homem. Elianne sente uma inveja flamejante quando observa o amor alheio fluir, e por não ter aquilo que cobiça, predispõe-se a tentar destruir e tomar para si aquilo que jamais conseguirá. Porque o amor é para poucos.


1 minuto de silêncio em respeito póstumo ao sonho do amor inatingível de Elianne.

● Penelope in the sky

Noite passada sonhei com Penelope Cruz, sem ver nem pra quê, sonhei. Acordei com Penelope Cruz figurando meus primeiros pensamentos do dia. Não há belos motivos para isso, mas sonhei, acordei e pensei. Pensei em Penelope Cruz o dia todo, e me senti profundamente estúpida, porque tenho plena convicção de que Penelope Cruz jamais pensará em mim. E mais uma vez fui tomada por pensamentos auto-corrosivos, uma voz com um jeitão todo regionalista dizia no íntimo do meu cérebro "Deixa de ser abestada". E assim me senti o dia todo, uma abestada por deixar que Penelope Cruz estivesse em minha mente por longas horas. Penelope esteve nos meus sonhos e nos meus pensamentos, até coloquei seu nome na busca do google imagens, e aquela égua sequer sabe que eu existo! Naquele dia Penelope me fisgou, roubou algumas horas de idéias e causou uma profunda indignação, que nem durou muito. Porque à noite fui assistir Vanilla Sky na casa de uma amiga.

● Maria

Hoje tocou aquela música do Raul no rádio. Ela não fala dos teus olhos rasgados, não fala do teu sorriso largo e nem da cor da tua pele, mas me faz lembrar desses teus detalhes que me deixa assim, cheia de graça.

● Sabe quem vai casar?

Era domingo, dia de colocar uma roupinha mais ou menos e sentar na porta da rua. E era esse o costume que Candoca e sua amiga mantinham desde criança. E lá estava ela, sentada e esperando a visita de sua amiga, com os mesmos olhos cansados - de quem há tempos espera por notícias dele - de sempre. Foi quando avistou Joana correndo, aflita e denotando bastante ansiedade. Com os olhos vidrados em Candoca, perguntou como quem ofende:


- Sabe quem vai casar?


Seu coração acelerou, sua pupila dilatou e suas mãos converteram-se em gelo. Ela já sabia a resposta. E isso lhe doía o peito. Mas seguindo a criação duvidosa que sua mãe, Maria Santa, mulher fútil e dissimulada, sempre lhe impusera, fingiu. Com ar de desdém, perguntou como quem subestima:


- Quem?


Joana, com um gostinho sádico na boca, respondeu exatamente com o nome que era uma ofensa ao conforto emocional de sua amiga. Esta permaneceu indiferente à notícia que acabara de ouvir, e com o orgulho estufado que a caracteriza, disse como quem se defende:


- Aposto que vai casar obrigado.


Joana, que não era boba nem nada, percebeu que aquela frieza toda de Candoca era apenas um escudo pro seu ego ferido. E com um sorrisinho malandro nos lábios pensou:


“Quero ver o que ela vai dizer pro travesseiro ensopado dela”.

● Sensibilidade

Um dia desses aí, eu vi um garoto, e o tempo parou por alguns minutos. Nos minutos seguintes o mundo foi convidado a menear em câmera lenta. O garoto. Eu quase não o enxergava mais. Mas ele me via. Ele me via? Eu o vi primeiro. Vivi o jeito que ele passava a mão sobre os cabelos, e vivi o primeiro olhar direcionado a mim.
Um dia desses aí, eu vi um garoto sentado debaixo da árvore mais bonita da cidade das letras, ele me direcionou outro olhar, então, algumas folhas secas dançaram para mim. Eu não sabia, mas eu acabara de me apaixonar, e só descobri 30 minutos depois, quando cheguei em casa e escrevi um versinho, com o intento desesperado de eternizar cada minuto.

● Isabela

Saiu de casa achando que não voltaria mais. Culpa dos pensamentos revoltosos, que esperam muito dela... Querem viver um sonho de liberdade a cada esquina. Saiu em busca de irreflexão. Encontrou alguém:
- Posso morar em você?
Sentou numa mesa, cheia de pessoas e garrafas vazias. Ficou com os olhos cansados de tanto observar aquela gente falando de suas vidas, de seus amores, jamais amados.
Depois de alguns drinks, saiu pelas calçadas, tropeçando em pedras e soluçando lamentos. Ponto de ônibus: com sorte ela pegará o destino certo. Ônibus lotado. Gente disputando seu oxigênio. Egoísmo ridículo que durou até o momento em que avistou Isabela, na oitava cadeira do lado esquerdo. Seus cabelos voavam alto com o vento que vinha da janela aberta, parecia nem se importar com o que acontecia ao seu redor.
Ficou encantada com a calma que o semblante de Isabela oferecia. Viu milhões de sois, girassóis, caracóis e tudo que rima com óis ao redor dela. Sentiu um frio na espinha dorsal quando sentiu a paixão ameaçar sair pelos poros outra vez. Tomou-se de medo. Teve que descer do ônibus.
Até sentiu vontade de dar tchau para ela, mas ficou com vergonha de Isabela – o nome mais bonito que conseguiu pensar para ela.

● Afeto no bar da esquina

O dono do bar, gentilmente, disse-nos que deveria fechar. Desejou boa noite e acenou com as mãos enquanto dizia:

"Vão embora sonhar, meus filhos".

Nunca pensei que Seu Zé fosse assim...

Tão afetuoso no fim.

● Ausente

Diante de todas as lágrimas que insisti derramar bem no meio de um feriado estéril, pensei ser capaz de digitar os versos mais tristes, nunca antes sonhados em mim. O dia brilhava possibilidades, mas frente aos meus olhos estava uma confusão de sentimentos que me deixa inerte diante de ações estúpidas, como dar um beijo adiantado e pré-destinado de despedida. Eu pensei de verdade, ser capaz de amar alguém, como só amei uma vez na vida, mas percebi que o sofrimento diante do meu desconforto emocional não sai de mim, e eu, envolta pelo resto do amor próprio que me restou, recuso-me a viver amores ficcionais. O sofrimento recluso em meus pensamentos é efêmero, como paixões carnavalescas. Eu, ser humano impotente e sentimentalmente desastrado, cansei de transformar sentimentos puros em vontades anestesiadas, sem higiene alguma, pela falta de esperança presente em mim. Desculpe-me por tudo.

● Eu agüento

A tal reforma ortográfica sentenciou: morte ao trema!
Eu poderia argüir horas e horas sobre as conseqüências da exigüidade do trema em nossas vidas. Poderia tentar persuadi-los com eloqüência falando sobre como o suco feito no liqüidificador perderá o sabor, de como os pingüins parecerão bobos e sem graça e de como a lingüiça dos churrascos perderá seu tempero. Eu poderia, mas não quero. Seria demasiadamente bobo. Sei disso.

Tempos difíceis virão...

● Medo de palhaços

Expressar o meu amor com três palavrinhas parece sensato. Mas sensatez não é bem a minha idéia de amor. “Te dou meu rim”. E de repente, quatro palavrinhas parece ser a melhor forma de expressar amor. Você se importa com o fato de eu não beber muita água? Ótimo. O rim é seu.
Não é uma disputa de quem ama mais. Estou em outro estágio. Sei que o amor pode ser preto e branco, mas é bem melhor com cores.
Não se preocupe em evidenciar amores. Atitudes e palavras podem ser sentenciadas. Sentir me deixa livre de qualquer coação. Eu sinto tanto. Eu amo tanto
Mas ainda tenho medo.

● Poluição emocional.

Atirei minhas lembranças da ponte

Tais lembranças não desceram o rio

Enroscaram-se no lixo daquele rio sujo...

● Romeu e Julieta?

Julieta era uma daquelas garotas que acreditava naquilo que a unanimidade julgaria ser belo. Era escrava da beleza física dos outros. Em suas relações, nem sempre amorosas, esquivava-se diante de um rosto bonito. E assim permaneceu por muito tempo, sempre resignada tendo o coração dilacerado por alguns Apolo’s. Até que um certo dia, após ter tido seu coração roubado e destruído por mais um filho de Vênus, Julieta pôs-se a chorar debruçada em sua janela. No momento, um homem alto e de magreza estranha passava na calçada, e claro, não pôde deixar de notar uma bela moça perdendo-se em lágrimas. Ofereceu um lenço, e educadamente, perguntou se estava tudo bem. Não ouviu nada alem de um choro descontrolado, com aqueles soluços infantis tão característicos. Enxugava o rosto úmido de mágoa com o lenço cedido, gentilmente, pelo rapaz desconhecido. Ela queria ter podido falar daquilo que lhe doía no momento, mas não conseguiu. O peso em seu coração não lhe permitiu.
O rapaz partiu, sem nenhum aperto de mão ou obrigada. Mas Julieta gravou no pensamento os traços fortes daquele rosto e a segurança que eles transmitiram naquele momento de tristeza íntima. Não seria absurdo dizer que Julieta passou a enxergar com o coração naquele exato dia, adquirindo um poder quase mágico de enxergar beleza onde quase ninguém consegue notar. Se eles se reencontraram? Sucinto dizendo que, hoje em dia, Julieta possui a cabeça nas nuvens e o corpo pênsil pelas estrelas. E ao invés de solidão, goiabada com queijo!

● Visão contemporânea

E lá vai ela mais uma vez, “caminhar para espairecer”. Foi esse o conselho que seu pai lhe deu após seu primeiro conflito familiar. Com seu rebolado discreto, e aquela velha tensão pesando em seus ombros, ela segue...
E lá vai ela, assistir filmes no cinema. Dia de quarta-feira é mais barato. No final do filme, ela faz uma cara descontente. Já não crê mais nos mocinhos. A cara de satisfação deles já não convence mais. Ela acha que eles devem estar insatisfeitos com toda aquela idéia adulterada de final feliz. Ela já sabe que não se é feliz na prática.
E lá vai ela, comer dois espetinhos no barzinho da esquina. Lá ela tem um encontro marcado com um cão sarnento e pedinte. Ela observa o cachorro por alguns segundos antes de arremessar o primeiro pedaço. Logo depois vem o segundo, e o terceiro. E lá está a cara de satisfação do vira-lata, com aquela feição que ela não encontra nas telas de cinema.
Ela já não se ilude mais com satisfações interinas, incitadas através de sonhos e de objetivos materialistas. Ela sabe que três pedaços de frango não cobrirão as costelas saltadas do animal faminto, mas pôde ver o contentamento pleno no impulso daquele cão.
E lá vai ela, torturar-se mais uma vez. Não existe tortura mais drástica do que a psicológica. Adotando um caráter masoquista, ela assume todos os pensamentos corrosivos que depravam seu cérebro. Trancada em seu quarto, numa escuridão íntima e sem pressa à sua urgência, ela transcende

● Tomates

Sempre que eu penso nela, o fantasma da tristeza se aproxima. Não importa onde eu esteja, em todo lugar e a qualquer momento eu sempre me pego pensando naqueles olhos. No supermercado, cercado por pessoas consumistas, vendo a vida passar sem ao menos me desejar ‘bom dia’, eu observo algumas senhoras em volta dos legumes, disputando os melhores, os não-estragados, e deixando de escanteio alguns tomates murchos. Mas eu penso que um dia eles foram tão exuberantes quanto os tomates selecionados, eles já tiveram vida útil, assim como um dia eu tive, antes de conhecer aqueles olhos virgens; de uma brancura fascinante; aqueles olhos tão negros, tão vivos, tão inquietos...
Coitado daquele que se apaixona pelos olhos dela. Mulherzinha da cara limpa, da voz melíflua, de olhar buliçoso, que covardemente, suga todos os sentimentos saudáveis que você carrega dentro do peito, e depois, sem mais nem menos, manda você jogar no lixo toda a paixão que você sente, deixando-o à deriva, comparando-se a tomates estragados em plena segunda-feira num supermercado popular. Mas eu sei que um dia ela vai chorar e vai sofrer, pela ausência prematura de alguém, pela agonia da saudade e pela dor sufocante da solidão. E então, ao invés daquela felicidade transbordante e daquela brancura contrastando com o negro de seus olhos, eu verei tomates murchos neles – rubros de tanta tristeza.

● Eu juro

Pelo amor de Julieta

Pela poção mágica de Tristão e Isolda

Pelo país das maravilhas de Alice

Pela queima de sutiãs em 1968

Pelos 4 minutos e 33 segundos de John Cage

Pela 9ª sinfonia de Beethoven

Pela melancolia de Cartola

Pela Flor do Pequeno Príncipe

E pela minha fé explícita

Acredite

Ele te ama.


Para a mulher de um amigo meu

● Falta momentânea do que fazer.

- Raquel auto-mensagem: Fui comprar 10 pães e 1 litro de leite.


● Não se mexa, ou eu escrevo...

A senhora idosa aguando as plantas enquanto as crianças brincam na calçada. O malabarista sorridente do semáforo contrastando com o homem estressado dentro do carro importado. O motoqueiro destemido que velozmente arrisca sua vida no trânsito... Vou vivendo, respirando as coisas que vejo, e elas me desafiam.
A vida parece ser feita de uma beleza simplória, e às vezes é preciso um tanto de poesia para enxergá-la. Conseguir ver a beleza na singularidade de momentos habituais é possuir poesia na alma?
Tanta vida acontece diante dos meus olhos, que chega a ser egoísmo ficar centrada em mim mesma falando apenas dos meus sentimentos hoje e sempre. Talvez nem seja egoísmo, e sim, excesso de romantismo. Romantismo me remete a bons livros, que me remete a Shakespeare, que segundo eu mesma, inventou o amor romântico.
Meus pensamentos são selvagens, correm soltos, não se preocupam com coerência e a caneta nem pra falhar...

● Cecília

Acorda todo dia às seis horas da matina, sempre, sem memória a favor de seus sonhos. Prepara seu próprio café. Ele gosta sem açúcar. Sem afeto, ele segue ao trabalho, caminhando por ruas escuras de uma manhã clara como o cabelinho dela.

Os vícios mundanos fecharam um acordo em aberto com seu corpo e mente. Por conta disso, ele não chega em casa no horário em que chegava antes, quando ela o esperava com a tarefa de casa a ser feita.

Volta do trabalho caminhando por ruas claras, pisando em calçadas remendadas com lembranças ácidas que corrói o peito de um homem que grita por dentro. O caminho é longo, e ele segue a mercê dos perigos da noite periférica.

Já não faz o sinal da cruz ao chegar em casa. Já não agradece ao deus de sua mãe por estar vivo. Sem fome, sem vontades, ele se agarra à boneca do vestido cor de rosa - a preferida dela, chora enquanto lembra de suas feições delicadas, de seus gestos infantis e encantadores.
Consome pensamentos vis, que o consome.

Sem beijo de boa noite e sem canção de ninar, ele adormece...

● Ócio

Eu quero festa. Quero reuniões amistosas com muito bate-papo. Botecos com banheiros limpos, copos sem marca de batom e tira-gostos sem cabelos alheios. Quero toalhas limpas nas mesas do bar, ou um humilde lencinho para colocar debaixo do copo, pois assim o suor da cerveja não se faz importuno. Existe coisa mais chata do que aqueles pinguinhos na sua calça jeans?

Cigarros? Sim. Eu fumo porque gosto, e não vou parar de fumar por ninguém além de mim mesma. Bebidas? Sim. Vou ficar de porre sempre por uma questão de necessidade, livre-arbítrio ou incúria. Carne vermelha, sangrenta e com aquela gordura do ladinho? Não, obrigada.

Paixão? Sim. Vou me apaixonar quantas vezes for preciso. Vou quebrar a cara em vários pedaços, vou ficar com dor de cotovelo, vou ligar bêbada chorando, vou fazer coisas idiotas num momento desesperado de paixão profunda e exagerada, vou me atirar de cabeça no relacionamento que logo se transformará num precipício, e tudo isso sem jamais perder a esperança no amanhã.

Vou desconsiderar os conselhos, e depois pedir colo com a cara de pau que eu sempre tive. Vou continuar vomitando e mantendo romances tórridos com o meu vomito. Vou repetir sem dignidade alguma a frase preferida dos bêbados afáveis e clichês “cara, eu te considero pra caralho!”.

O certo é que eu sempre vou querer ter ao meu lado pessoas que gritem comigo quando eu me calar por não saber o que fazer. A partir de hoje nada mais me abala, nada mais me assusta ou me apavora. Todas as coisas indesejáveis que acontecem comigo, são para o meu próprio bem. Eu sou o máximo, eu sou foda e essa sensação de supra-sumo terminará em cerca de dez segundos...

● Sol

Depois do que eu vi em você
Do que eu ouvi de você
Do que eu pude sentir por você
Eu recuperei aquele brilho nos olhos
Aquele brilho que há tempos eu havia perdido
Nem tristeza eu sinto mais
Aprendi a dizer ‘eu te amo’ sem sarcasmo
E a vida me parece bem mais leve
Eu não quero mais sofrer
Eu não vou mais fingir
E nem vou fugir
Eu vou amar você
Por tempo indeterminado

● A sombra.

Eu me canso
E tu descansas
Em paz
Nos meus sonhos
Eu te sinto


E se nos encontrássemos outra vez
Contar-me-ia sobre tua vida?

- Não fique calado. Fala-me dos teus sentimentos. Culpe-me por não ter te impedido de sofrer.

● Ser Urbano.

Tristeza incerta. Saudade exata, como os raios de sol do meio-dia, como os meses do ano, como os meus vinte anos quase bem vividos. Eu cresci, e ainda não sei o que eu vou ser, mas sei o que sou: um ser urbano frágil, como todos os outros.
Um ser urbano degradando-se na cidade esquecida. Um ser urbano com um cigarro numa mão, e o coração na outra. Um ser urbano parado do outro lado da calçada, esperando os carros passarem. Um ser urbano cruel por dizer adeus. Um ser urbano com o ouvido sempre alerta, aguardando sussurros de liberdade. Um ser urbano com o sorriso feito de alegria ou sarcasmo. Um ser urbano imprevisível. Um ser urbano clichê, cheio de frases embrulhadas para viagem.

● Blusa Listrada.

Parei, sentei, respirei fundo e concordei com o Cartola: preciso me encontrar, ou seja: eu realmente preciso arrumar meu quarto.

Eu tenho uma mania nada útil de guardar caixas de chocolate vazias. Algumas delas devem ter mais de cinco anos, lá eu guardo bilhetinhos trocados na época de escola. E esse é só o inicio da ‘sessão nostalgia’.

Depois vem o caderno de desenho do jardim da infância, e a certeza de que eu nunca tive talento para desenhar. Mas a tentativa baldeada de desenhar um elefante me diverte.

Depois vem a hora de arrumar o guarda-roupa, cheio de roupas amassadas e esquecidas, friamente, no fundo das gavetas. E ela estava lá, a blusa bege com listras brancas, totalmente ofuscada pelas blusas mais novas. A blusa listrada estava com complexo de inferioridade, e eu pude entendê-la e confortá-la, afinal, ela já havia sido a minha preferida, aquela que ia bem com todas as calças, e saias e shorts. Então eu a vesti, com aquele cheirinho nostálgico de naftalina, e saí por aí...

Eu não vesti somente a blusa listrada, eu vesti as lembranças que ela traz consigo. Lembranças guardadas nas gavetas do cérebro. E ainda bem que certas lembranças foram totalmente devoradas pelas traças...

● Saudade.

● (Y)

A vida é cheia de surpresas; assim como a china é cheia de bicicletas.





● Nadificando.

Adoro quando chove, e não é segredo para quem me conhece rindo. Mas devo confessar que os dias chuvosos, às vezes, são melancólicos e monótonos. Salvos, apenas, os dias em que seu namorado vai lhe buscar no trabalho num dia de chuva, raios e trovões, levando para bem longe a tristeza que ameaça surgir. O que consegue ser mais lindo que um céu cinza? Eu sei, é o primeiro raio de sol após a chuva. Na infância, minha avó dizia que quando sol e chuva acontecem simultaneamente, está acontecendo no céu "O casamento da raposa". Eu não lembro qual o fundamento dessa expressão, mas toda vez que isso acontece, olho para o céu e imagino uma raposa casando. Tsc.
Érr... Vou aproveitar que o clima hoje está perfeito, e vou ler meu ‘livro de cabeceira’ lá fora, olhando para o céu, e tomando Nescau quentinho na minha caneca da Marilyn. Coisas simples como estas, fazem-me suportar o sustentável peso do meu ser.









Minha caneca da Marilyn - frente e verso.

(presente da Fla)

● Textículo de natal.

É triste, o natal não possui mais o seu cheiro característico. Essa data já não me faz sonhar. Lembro das sensações que essa época do ano me trazia, era tão bom o contato com a fantasia de ser criança para sempre. Algumas coisas continuam as mesmas, mas eu mudei, e acredito em Clarice, “o adulto é triste e solitário”. O natal se tornou uma data melancólica, e o peso das lembranças de 2007 enchem meus olhos. No momento estou sonhando com 2008, rompi com as promessas vazias de final de ano, agora eu só vou desejar clareza de sentimentos, para mim e para todos ao meu redor. Chega de dúvidas. O meu amor agora vai ser explícito, e se você não souber o que fazer com ele, dê para outra pessoa. A vida é breve, e o amor tem pressa.

● q

O prato sujo em cima da pia parece triste. Eu também pareço triste, ouvindo música triste com uma ressaca triste. Cansei de paisagens artificiais, eu quero o litoral. Uma rede, um livro e o vento brincando com as folhas secas também. Quando o vento varre as folhas secas, elas parecem querer voar, a tentativa de vôo é meio frustrada, pois elas não conseguem voar tão alto. Mas todo mundo diz e é verdade: o que importa é tentar. Hei, eu pareço querer voar? Pássaros voam e encantam. Mosquitos voam e irritam. Pássaros cantam. Mosquitos fazem coçar. Eu não canto, nem faço coçar, mas eu queria voar.

● Capricorniana procura Taurino.

É isso mesmo. Capricorniana solteira procura taurino sensual para relacionamento afetuoso e estável.

Ela é inteligente, pois foge de manipuladores de relacionamento. É sensível e capaz de engendrar amor em corações acéfalos. É carinhosa, sim, mas apenas com um seleto grupo de pessoas. APROVEITE! Ela não gosta de jantares caros, ou lugares românticos da moda, ela gosta mesmo é de dividir um sorvete de frutas cítricas num dia de calor extremo, ou olhar seu amor comer um cachorro quente, enquanto sorrir do seu jeito desastrado, e da maionese no canto da boca dele.

AGARRE LOGO ESSA OPORTUNIDADE! Ela fuma. O maço de cigarros dura uns quatro dias. Mas na mesa do bar, um maço inteiro vai embora em algumas horas. Sim, ela fuma e bebe, mas seu fígado é frágil como o de uma freira que tomou um porre depois de duas taças de vinho.

NÃO PERCA TEMPO! Ela ouve Chico Buarque e ler Sylvia Plath. Envolve-se em discussões do tipo: Terá ou não o carneiro comido a flor? Quando apaixonada, mensalmente, escreve cartas de amor. Seu espanhol não é fluente, mas é deveras sensual.

Ainda não se convenceu? Fique então sabendo de suas qualidades culinárias...

Ela faz um delicioso miojo com salsicha e cenoura crua ralada. Prepara tira-gostos simples e deliciosos: queijo minas com orégano e azeitonas recheadas e picantes. Serve a cerveja na temperatura e da forma certa. Nada de cerveja congelada ou espumas indesejáveis.

É SÓ ATÉ QUARTA-FEIRA! Aqui você encontrará uma capricorniana, sensível, livre de sentimentos pela metade, e independente do seu dinheiro. Ela é intensa, mas não é de sufocar àquele que ama. Ela não vai se meter no seu orkut, nem vai sentir ciúmes da sua ex-namorada; não, ela não é insegura.

Então, se você nasceu de 21 de Abril a 20 de Maio, o que está esperando? Ligue para ****-3816.

A sua felicidade, ou o seu dinheiro de volta.













“Touro é o par perfeito para Capricórnio” .
.. assim disse a revista de horóscopo.

“É, mas quem liga para ‘par perfeito’ se você tem um leonino que te aceita”... e assim disse o Rafael.

● Pêssegos em calda.







Passei o ano inteiro dizendo que estava cansada, que isso e que aquilo. E no último mês do ano, arrumei uma energia incrível para jogar alegria na cara de quem duvidar. Como confetes felizes no carnaval. Talvez seja o Nescau de cada dia, ou talvez seja o amor saindo dos poros outra vez. A insônia ainda me consome, e eu ando consumindo arte. A troca é justa, talvez necessária. Eu não sei o que escrever agora, mas eu sei que, muito do meu verbo sobreviver, vem dos meus rabiscos de cada dia; eu apenas fumo um cigarro, sinto meu coração apertar (nem sempre é de tristeza) minha mão fica gelada (mas quase sempre ela está assim mesmo) e começo a grafar o que vem a mente. Agora mesmo eu pensei em pêssegos em calda, não sei porque, mas me ocorreu essa lembrança. Lembro que minha mãe abria a lata de pêssegos em calda, e separava a calda numa xícara, e os pêssegos numa vasilha com tampa. Minha mãe nunca mais comprou pêssegos em calda; e eu nunca mais pensei em pêssegos em calda; até hoje.

● Bossa Velha

Hoje eu vi o dono dos meus versos na Livraria. Quando dei de cara com ele, pensei: “Merda! Por que diabos eu entrei aqui?”.
Ora mais, eu entrei para comprar algum livro, e também porque estava um calor insuportável, e o clima ambiente de lá é super agradável.
“Mas porque ele tinha que estar logo aqui?”
Porque eu precisava vê-lo e concluir que me livrei de uma paixão que mais parece um câncer.

Eu fui até lá. Cumprimentei-o, e aproveitei para dar uma olhadinha no livro que ele segurava nas mãos, percebi que ele ainda me causa curiosidades. Normal. O livro era “Lula é minha Anta” do Mainardi. Eu quis comentar sobre o livro, mas achei que estaria sendo inoportuna, já que o orgulho puxou minha orelha e disse: “não seja tola, vai puxar assunto, por que? Você já veio até aqui cumprimentá-lo, isso basta”. Concordei. Beijinho de um lado e do outro: A gente se vê!

No corredor vizinho, passou uma retrospectiva na minha cabeça, típica daquelas de finais de ano. Só que no meu caso, foi de apenas duas semanas, as que eu dividi com ele, claro. Lembrei de como a gente era feliz ouvindo João Gilberto, ou disputando um nissin miojo de bacon. A gente sabia multiplicar momentos felizes. Mas eu só enxergava o que meu coração permitia, apesar do sol que dava indícios e ameaçava sumir o tempo todo.

Ele partiu levando o melhor de mim. Eu chorei o suficiente para não querer chorar mais. O fato é que estou curada de tudo isso, a quimioterapia da paixão sem futuro deu resultados. Eu me nego a interpretar o espetáculo da menina apaixonada sem aplausos outra vez. E afirmo com toda certeza, eu nunca mais nessa vida ouvirei Bossa Nova com ele.

Acredito em reencarnação.

● Paixaozinha de merda.

Como quem não quer nada, eu ofereci meu abraço. Meus olhos enfeitados com olheiras de quem não dorme há dias, oferecia promessas vazias, em silêncio. Eu sinto muito por não ter olhado mais pra você. E agora, declaro-me escrava da minha paixão fria de razão.
Acordei tarde de uma noite etílica, atrasada para todas as coisas. Eu chorei. Pensei que talvez fosse diferente se eu acordasse todos os dias com você ao meu lado. Eu me descubro romântica, e passo a aceitar isso.
Eu te escrevi uma carta cheia de paixão com fratura-exposta; talvez eu a queime ainda hoje. Sabe, eu queria te carregar no bolso secreto da minha bolsa, é lá onde guardo as coisas mais importantes, aquelas que eu não posso perder de vista em meio à bagunça ao redor. Eu queria descobrir tuas manias, e te entrevistar todos os dias. Eu queria te contar o resumo dos meus dias triviais, e preparar no liquidificador o teu suco preferido. Mas você não se importa com nada. Você não se importa com o meu abraço cheio de sentido, com o meu sorriso colado em ti, que se abre junto com os olhos rentes aos teus, enfim, você não se importa com o meu sentir, que é teu, sem ser do mundo.
Eu até tento não pensar mais em você, porém, o inevitável está perto. Mas hoje aprendi que só posso desejar aquilo que eu posso ter. Então, não é por nada não, mas faça o favor de ir cagar em outro coração.

● Adoro

Abraçar

Creme de galinha com manga/ catchup

Assaltar a geladeira de madrugada

Dormir de meias quando está chovendo

Barriguinha de gatos

Focinhos de cachorros

Banhar na chuva

Ver o mar às cinco da tarde

Estourar plástico-bolha

Suco de abacaxi

Conversar com idosos

Falar palavrão na hora da raiva

lamber o bolo sem que ninguém veja

Cantar no banheiro

Passar batom vermelho e fazer caras e bocas na frente do espelho

Espirrar

Lavar as mãos

Estralar os dedos mínimos

Beijos na testa

O "falar" espontâneo das pessoas simples

Limão

Falar sobre sexo com as amigas

Pão com manteiga amassado na frigideira

Procurar o significado das palavras no dicionário

Andar descalça

Deitar na grama

O vento

Beijar

Beijar com piercing

Escrever

Escrever na praça Pedro II

Ir ao cinema

Ir ao cinema sozinha

Comentários pós-festa

Sorrir

Rir

Fazer barraco por amizade

Xingar o Iury

Ficar bêbada junto com o João

Ouvir A-ha com o Pedro

Os apelidos que o Glauber me dá

Deixar a Fla “magoada”

Encher o saco da Pá até ela dizer: “meu cu”.

Amigos.














Plástico-Bolha me abraça forte!

● P ó s t u m o

Caros queridos...

Moro numa cidade linda. Ela é verde! Em cada rua há pelo menos uma árvore. As avenidas são limpas, e quase não vejo pichações nos muros. Hoje eu passei cerca de uma hora sentada na praça mais agradável da cidade, eu desejei o dia todo estar sentada ali. Eu gosto de observar o céu que ameaça chover, e as pessoas com o semblante melancólico; acho que os dias cinzas deixam as pessoas desse jeito. Minha cidade nem sempre é assim; o sol aqui tem vida própria, e o azul do céu é bonito de se escrever. Apesar do verde que me encanta, e do céu azul com o sol alto para dicionário nenhum botar defeito, a cidade está ficando perigosa. Tudo bem, é quase improvável que eu morra com uma bala perdida... contudo, está difícil diferenciar cidadãos de bandidos. Eu me sinto mal quando mudo meu percurso por causa do rapaz que não se veste tão bem quanto a sociedade gostaria ou quando corro do moto-taxista que só queria fazer uma corrida. Sou uma vítima neurótica da violência dos jornais. E sou uma sortuda neurótica por ainda não ter sido vítima desta violência.

Nunca ninguém vai saber a verdade do amanhã, e o precipício é logo ali. Então hoje eu queimei meus pensamentos tentando saber, o que de fato, eu gostaria de fazer antes de morrer. Metade de mim, adoraria observar o mar, junto a um sol deslumbrante, enquanto tomo uma cerveja em algum kioski da praia; a outra metade, gostaria de dormir pela última vez em uma cama quentinha enquanto o céu deságua do lado de fora, sentindo o cheiro da chuva que me faz desejar estar ali para sempre. Sim, a minha intenção é escrever um texto póstumo. Talvez eu nem diga “feliz ano novo!” esse ano.

Eu não tenho certeza se eu gostaria mesmo de ser cremada, tal incerteza me faz pensar que sou muito “apegada à matéria”, e essa é uma preocupação real dos espíritas. Ei, mas quem liga para eles? Só acho que deve ser triste para meus queridos não ter um lugar simbólico para derramar suas lágrimas sobre mim; mas eu nem gostaria que houvesse aquele chororô de espantar até carpideiras. Nada de reza, terço e sermão de padre; e que a missa de sétimo dia seja bem simples; sim, ela é inevitável porque eu sei que sou especial e única na vida de vocês. Não curto drama, portanto, não me venham com nhem-nhem-nhens. E no velório, por favor, nada de caixão aberto! Não quero beijos na minha testa geladinha, e nem ninguém pegando em meus cabelos; muito menos, pessoas olhando para o meu rosto com tufos de algodão enfiados no nariz. Escolham uma foto bem bonita, colem no vidrinho, e mantenham o caixão fechado!

Depois do velório, quero todos no bar mais próximo. Bebam pinga, ouçam Stones, joguem sinuca. Alegria! Mas eu sei que em algum momento “alguém” não vai agüentar. Não tenha vergonha, meu querido. Peça para ir ao banheiro e chore! Depois lave seu rosto, coloque seu Ray Ban e finja estar tudo bem. E mesmo que você não encontre uma mulher tão intensa, maravilhosa, e humilde quanto eu, você vai achar uma mulher legal que fará você me esquecer algumas vezes. Você sempre vai ressaltar minhas qualidades, e desejar que eu estivesse presente nos melhores momentos da sua vida. Eu não sei se eu gostaria que você me supervalorizasse depois de morta; na verdade, eu queria que você me desse valor agora. Mas tudo bem, eu entendo.

Ah, e vocês, meus amigos, quando ficarem desempregados, levarem um pé na bunda ou tomarem no cu de outra forma, nem venham pedir minha ajuda. Lembrem-se: eu estarei morta, e santa é o caralho! Se eu for cremada, de tardezinha, joguem minhas cinzas na praia de Atalaia; e se eu for sepultada, levem rosas vermelhas; nada de flores de plástico, e nem me venham com aquelas coroas horrorosas do Dia de Finados.

Bem, eu não tenho grana, nem imóveis para deixar de herança pra ninguém. Mas eu tenho uns livros, DVD’s e alguns CD’s bacanas. Meu violão vai ficar com a Tainah. Os livros vocês resolvam no tapa aí. Se der pra doar meus órgãos, não percam tempo, eu autorizo.

A morte não é algo triste. A memória curta das pessoas, sim.


ps: minha gente querida = familiares e animais de estimação, amigos, ele, ficantes e ex-namorados.

ps²: sim, nesta ordem.



● E lá vem o ônibus...


Saio do trabalho às 17:30. Fico na cantina batendo papo por uns dez minutos, eu acho. Eu não uso relógio, e nem celular eu tenho mais. Perdi a hora, literalmente. Que seja. Eu não gosto mesmo de me preocupar com horários, e depois que o João (meu amigo de diamante, carne e muito osso) disse que o relógio não marca as melhores horas da nossa vida, eu pude respirar e deixar o tempo passar, sem provocações à minha falta de pontualidade. Eu sempre assisto meu ônibus amarelo passar, se eu não ficasse conversando com meus colegas de trabalho na cantina, eu pegaria o ônibus no horário exato, e não me atrasaria para a aula; no entanto, eu economizaria em algo que adoro extravasar: nas risadas. Não troco momentos descontraídos no final de uma tarde de trabalho, por uma sentada pontual naquelas carteiras desconfortáveis da minha sala de aula.


Eu espero meu ônibus amarelo em uma das avenidas mais movimentadas de Teresina, já fiz várias amizades breves pelo simples fato de estar sentada ali. Uma vez um rapaz me ofereceu seu caderno para que eu sentasse em cima, “o banco está quente”, ele disse. Em outra, uma senhora me mostrou uma imagem junto com uma oração, “Que santo é esse aqui, minha filha?”, “É Jesus cristo, minha senhora”. “Mas que coisa linda, né?”. “A senhora acha?”, ainda lembro do olhar doce daquela senhora.


Hoje a cidade estava cinza, a avenida não tão movimentada, e a parada de ônibus estava literalmente parada. Mas havia um rapaz de all star vermelho, o tênis de cor forte, chamava mais atenção do que o próprio, mas ele carregava consigo minha revista preferida, a Mundo Estranho.


Eu tenho uma necessidade vital de escrever quando me sinto sozinha. E foi assim que eu me senti hoje no final da tarde, quando puxei da minha bolsa uma agenda que ganhei de alguém que desejava me ver mais organizada no ano de 2007. Eu até tentei ser no começo do ano, só acho ridículo ter que agendar a vida. Mas gosto de rabiscar. E num estilo "dear diary", eu rabisco meus pensamentos voláteis nas últimas páginas da agenda.


Eis o rabisco de hoje:


Estou me privando de pensar em certas pessoas, odeio gente que se entrega pela metade.
Eu devo me odiar também. A tristeza chega tão rápido, que se confunde com a velocidade desses carros que passam na minha frente. E para enfeitar ainda mais a minha tristeza de última hora, começou a tocar Elliott Smith no mp3. Eu sinto tanta saudade de quem não está mais do meu lado, e penso que, ou eu sigo em frente e encontro outra pessoa para brincar de fazer planos a dois, ou vou ter que administrar a solidão que eu nunca sonhei pra ninguém.
Eu tento disfarçar duas lágrimas que escorreram sem educação e permissão, ao mesmo tempo em que tento esconder meus rabiscos do rapaz do tênis vermelho que está sentado ao meu lado. As lágrimas já percorreram minhas bochechas. O rapaz percebeu que estou chorando. Agora ele está me olhando com a cara de “quer ajuda?”. A criatura insiste em querer ler o que estou escrevendo; situação engraçada. Ele até que não é de se jogar fora, mas é curioso pra caralho! A caneta está falhando...

● Superexposição.

.... - diz (00:24):
Eu acho que vou casar é contigo
- Raquel diz (00:24):
Hein?
... - diz (00:24):
É...
... diz (00:24):
Mas eu acho que não te agüentaria nem uma semana
... - diz (00:25):
Você é bagunceira, e deve andar jogando roupas no meio da casa e deixando as gavetas abertas e bagunçadas.
... - diz (00:25):
Além de tomar água no gargalo...
- Raquel diz (00:26):
É, eu sou assim.
... diz (00:26):
É... dava certo não
... diz (00:27):
E também acho que me divorciaria alegando que você abandonou o lar...
... diz (00:27):
Acho que você sairia e passaria vários dias fora de casa... quando voltasse, era com a cara de ressaca
... diz (00:28):
Mas ainda acho que vamos nos casar.

____


Por que eu nunca escrevi um texto sobre ti? Por que eu nunca escrevi sobre as nossas conversas intermináveis? Sobre a necessidade física de nos falarmos todos os dias? E sobre as agressões verbais gratuitas, que no final, só expressam um amor escondido a sete chaves.

Um dia você brigou comigo por eu xingar muito, e me alertou para uma possível Síndrome de Tourette. Falávamos sobre coisas que não teria a menor graça se fossem ditas para outras pessoas. Uma vez eu disse que via imagens surreais quando ouvia Pantera, e você disse que tinha medo de um certo urso que usava um macacão com botões. Eu chegava da escola, tirava o tênis, e ainda de meias, almoçava uma ligação tua. Eu lembro que no meu aniversario de 15 anos, eu te fiz esperar junto aos meus parentes, eu sabia que você não estava se sentindo tão à vontade. Eu te conheço. Então eu apareci, e você me olhou com uma cara de ator de comercial de margarina. Eu sei que você quis dizer que eu estava linda naquele dia, mas você só conseguiu dizer: passou óleo diesel no cabelo?
Você me olhava de um jeito diferente à noite toda, acho que você pensava como o Chico, “essa moça ta diferente”.
No final da noite, você se despediu:

“Me dá um abraço, limão?”.
E eu te dei um abraço de até logo.

Muita coisa aconteceu depois disso. Nós dissemos ate logo para a nossa amizade, por exemplo. E ate hoje não entendo por que a gente passou tanto tempo sem se falar. Uma briga banal, e pronto: foi-se embora o meu melhor amigo. Foi difícil ter que te procurar em outras cabeças. Eu não podia acreditar que você tinha passado a me odiar. Eu achava de verdade que aquilo era apenas um sintoma de viadagem. Até que você ligou bêbado para a minha casa, dizendo: “os soldados russos estão chegando!”. Meu pai mandou você dormir, e me deixar em paz. Eu ri muito disso, não ri de ti, eu ri por perceber que nada havia mudado. Eu fui vendo que não fazia sentido a gente estar separado. Apenas você sabia das minhas fraquezas, das minhas esquisitices, e dos meus vícios de linguagem.

Você me falou por MSN que não sabia qual seria sua reação ao me reencontrar. Eu disse: só não mije nas calças.
E então, num feio dia, eu quis cuspir na cara de todo mundo ao meu redor. Eu te procurei. Eu saí te procurando pelo Sacy, com os bolsos vazios de tudo. Eu te encontrei. Eu quis te dizer um monte de palavrão quando você saiu correndo ao me ver. O clima ficou estranho. Éramos dois seres estranhos, sem a mínima vontade de não parecer assim. Alguns cigarros, algumas piadinhas... e o gelo foi derretendo com as nossas risadas...
Depois de algumas reticências, a história termina com um abraço.

● Recaída.


O reflexo da minha saudade, tão tua, hoje em dia, é apenas a parte invisível dos meus dias; ninguém consegue mais vê-la, mas eu consigo até tocá-la. Os dias estão monótonos em tons alaranjados, e as palavras partem de mim, assim como você partiu de mim em infinitas partes. Eu sinto falta daquela menina que te olhava com o brilho nos olhos de um olhar feliz; porque ela também partiu de mim, no momento em que eu me vi sozinha.

● Entrevista pífia.

Qual avenida faz lembrar tua infância?

Qual música tua voz cultua?

Qual o valor das tuas lágrimas de travesseiro?

Qual a melhor hora para olhar o céu?

Qual sentimento te vira pelo avesso?

Qual teu gerúndio preferido?

Qual filme desmancha teus olhos?

Qual tua cor predileta?

Qual poema te desarma?

Qual sonho segura entre os dedos?

Qual verdade absoluta você me dá?

● Eu sei que você me bloqueou.

Conversas hilárias e intermináveis com amigos quase de carne e osso, alegram minhas noites. Mas há 10 dias você não entra no MSN, e eu me pergunto se você me bloqueou, ou se está apenas Offline para não falar comigo, porque eu sei que você está na Internet. Lindo como sempre na frente do monitor; camisa no ombro esquerdo, e cabelo molhado penteado para trás; sim, porque você só liga o computador depois daquele banho que dura, em media, 20 minutos. Talvez seja só exagero da minha parte... Por que você me bloquearia, não é?

Mas eu vi a foto do seu perfil no orkut entre os dez últimos logados. Então, eu fico esperando você entrar online, interrompo esse texto só para dar uma olhadinha no MSN, para ver se seu nome já está lá, e nem um sinal do nome preferido da minha lista de contatos. Eu me sinto estúpida ao ficar imaginando sua cara de “afffff” ao ler meu nome “Raquel acabou de entrar”, e sua risada ultramaléfica ao me bloquear sem dó nem piedade do seu MSN, penso se você está empolgado em outra conversa, se está vendo alguma garota se exibir nua na web cam, e se vai marcar um encontro com ela depois disso. Minha mente trabalha de forma errada e exagerada. Dei outra olhadinha na tela principal do MSN, e acho que você me bloqueou mesmo.

Talvez você já tenha lido aquele e-mail que enviei pro seu Hotmail, só não teve tempo ainda de respondê-lo. Eu me sinto idiota por ter escrito aquelas palavras num momento de euforia, mas eu precisava te dizer tudo aquilo que você me fez sentir em apenas uma semana. E agora eu escrevo em outro momento de euforia, escrevo pela semana evasiva que você me deu.

Ontem a noite, depois de dois “axiomas” e uma coca-cola em lata, a sós com meus pensamentos, cheguei à conclusão de que você não respondeu meu e-mail porque achou que seria redundante reafirmar tudo aquilo que já havia sido dito por mim, você leu meu e-mail, sim, mais de uma vez, com aquele sorriso perfeito no rosto, e ainda disse: “nossa, como ela escreve bem! E é isso mesmo! Eu também penso assim, ta tudo aí!”.

Não, você não me bloqueou. Entrou no orkut apenas para deixar um recado urgente, e nem me viu online. E não me ligou, porque está esperando a volta de Jesus Cristo, o presente do papai Noel, e a Carla Perez aprender a ler e escrever. Continuo esperando.

● Eu te amo!

A virgula indica uma pequena pausa no meu gostar.

O ponto marca o final de uma história mal resolvida...

As reticências me fazem querer você mais uma vez, só dessa vez

Exclamações, interjeições da alma (dois pontos)

● Suco de laranja e bolo de cenoura.

Zeca poderia ser só mais um objeto empoeirado no canto da casa, porém, ele é mais do que isso. Ele é testemunha de uma paixão em prantos. Olhos vermelhos que carregam o fardo de transformar um homem num menino novamente, e a tristeza, numa lembrança singela e isenta de pensamentos negativos. As marcas que ele traz consigo, não é sujeira, são recordações: do dia em que, ganhou-se mais do que se perdeu. Porque, cá para nós, a superficialidade sempre vai embora na hora certa.
O mundo sorrir. Comemoremos!

● Talvez.

Eu me perdi por aí. Estou perdida que nem filha da puta num "dia dos pais" inútil, e tudo isso, porque sou dramática e extremista. Perdi a hora com aquela tua pergunta surpresa: “Por que você me beija sem vontade?”. Eu me calei voluntariamente diante do teu questionamento sem lógica. Mas quando cheguei em casa, eu quis achar as razões que te tocavam.
Talvez, eu te beije fazendo um charminho idiota de quem finge não querer beijar. Talvez eu fique desmotivada porque você me dá poucos beijos e bem menos do que eu gostaria. Talvez eu fique desestimulada porque eu queria te beijar de manhã e de tarde; não que eu não goste dos nossos beijos noturnos, mas eu queria o sol como testemunha também. Talvez eu fique pensando se seu coração está feliz, e me desleixo nesse beijo quase perfeito, e meio duvidoso. Talvez eu te beije com o cansaço da saudade de uma semana corrida.
Talvez nosso beijo seja de cinema, e talvez isso seja quase bom, ou quase ruim; Porque nossa vida é um filme com um final quase feliz, ou quase triste...
Talvez
esse beijo seja apenas uma ficção.

● Outras.

É duro admitir, mas eu fui trocada por outra.
Por outra não, por outras.
Meu primeiro namorado, aquele... que eu respirava fundo antes de ligar para saber como havia sido seu dia, aquele que eu amei desde a primeira conversa. Pois é, ele me deixou para ficar com outra; Na verdade, o namoro já havia terminado, mas enquanto houver esperança, haverá um coração iludido.
Meu segundo namorado, aquele teria me dado a constelação de capricórnio, se eu tivesse pedido. Mas eu não pedi nada, e não dei nada. Terminei, e, arrependi-me. E quando eu quis voltar...
adivinhem? Ele já estava com outra!
Meu terceiro, não foi bem um namorado, mas foi uma paixão forte que me causou sérios transtornos mentais; Eu era uma vassala, e ele, o meu senhor feudal (Fogueiras de sutiãs, agora), Ah,
esse já tinha outras há muito tempo.
O meu quarto caso, também foi uma paixão, bem menos intensa, admito, mas eu juro que tentei fazer o negócio durar. Não deu certo. Eu fiz doce, e ele me substituiu por outra.
Então, garotas, a parada é a seguinte: eles sempre nos trocarão por outras. Contenham-se!
Mas, será se eles deixariam as outras pela gente?

● Someday.

Quando o nosso amor der certo, ele deixará de ter esse gosto amargo, que lá no fundo, tem um gosto doce. Quando o nosso amor der certo, ele vai ter um gosto enjoado. Porque quando o nosso amor der certo, ele será tão doce, que vai me fazer enjoar você.

● Quotidiano.

Esqueci o gosto amargo das minhas lágrimas de travesseiro. Pensei em tudo aquilo que me faz feliz. E descobri que a felicidade habita os detalhes. Estive pensando nos personagens do meu dia-dia. Começando pela minha gata mais velha, Lolita, que todos os dias mia uma canção na porta do meu quarto. Acordo com o chorinho miado dela, e com isso, eu economizo 20% no mau humor. Depois vem a minha caçula, toda frenética a pular no sofá. Vejo aqueles pulinhos insanos, e penso: o dia começou!
O “homem do bombom”, aquele que, com um sorriso, sempre me informa a hora certa, lembrando-me a quão atrasada estou. Entro no ônibus, lá existe mais dois personagens: O motorista safado que sempre olha de um jeito indiscreto para minha bunda, e o cobrador gordinho: o único da cidade a desejar boa tarde aos passageiros.
O vigia de olhar desconfiado e sorriso rápido, meu primeiro boa-tarde no trabalho. E existe um personagem indefinido aqui, pois ele é aquele que dividirá 30 segundos de seu tempo comigo no elevador, e ouvirá a minha queixa lamuriante sobre calor e cansaço. Depois, vem a Teresinha, aquela que me recebe com um “chegou, minha filha!”, e sempre que escuto isso, sinto como se ela estivesse esperando minha chegada, e é sempre bom saber que alguém nos espera, né? Valdenor, colega de trabalho, e também o beijo na testa de cada dia. Meu chefe, homem educado e introspectivo, possui os passos incrivelmente silenciosos e um ‘boa-tarde’ sem vibração nas cordas vocais. Adelaide, os olhos mais gentis que já vi, mesmo apressada, ela manda um beijinho com as mãos e eu me sinto bem.
Na universidade. Primeiro rosto: Sabrina, o sorriso de bebê, e os conselhos quase sempre sensatos. Marcão, o dono das risadas alheias. Iury, apesar de me negar seus cigarros, gosto dele e de sua vida tragicômica. João, o melhor abraço. Narcisio, esporte. Flaviane, palavrão. Segue...

● zero.

0

● Na verdade, era Beatles.

Sentou-se do meu lado. Com uma Heineken na mão e um cigarro, já quase no filtro, na outra. Ficou tentando lembrar-se de uma música antiga do Elvis. Na verdade, eu não tenho certeza se era do Elvis, mas ele tinha a maior cara de quem pagava pau pro rei. Era dono de um aspecto meio porra-louca de ser. Poderia ser um deus ou diabo, o certo é que todos a sua volta, aparentemente, deviam-lhe respeito. Prestei atenção nas conversas na base da linguagem fática que ele mantinha com as pessoas que se aproximavam. Gravei na alma a risada grave e extensa que era também contínua. Continuava marcando ritmo, batendo os dedos na garrafa já vazia, e repetindo um “na, na, na, na...” ligeiramente irritante. Ele ainda não havia lembrado da música que pedia insistentemente para ser trazida a memória. Então o cansaço bateu a minha porta, e eu abri. Senti-me cansada de ficar ali, assistindo momentos alheios sentada num puf verde-limão. Levantei-me para ir embora, foi quando ele tocou levemente minha mão, perguntando:
- somos livres?
Eu respondi que sim.
- e por que ninguém canta nas ruas?
- medo de que “eles” nos chamem de loucos?
- mas nós somos “eles”.

Fiquei muda.
Então, eu virei as costas e saí caminhando lentamente, esperando que ele reagisse ao meu silêncio. E ele começou a cantarolar
alto para quem quisesse sentir sua emoção:

All you need is love, all you need is love,
All you need is love, love, love is all you need!

● Você é um objeto?

Pegou a forma de gelo. Colocou todos os cubinhos em seu copo. Pôs de volta no congelador. Agora a forma de gelo está: congelada e vazia.
Bebeu a última cerveja que estava na geladeira. Em seguida, jogou-a no lixo. Agora a lata está: amassada e vazia.
Riscou todos os palitos de fósforo. Jogou a caixinha no esgoto. Agora a caixa de fósforos está: molhada e vazia.

● Suco de abacaxi.

Cansei de tristeza e não quero mais cansaço. Eu quero é um beijo profundo com gosto forte de vodka.
Não quero ter que me recuperar de uma ressaca moral por ter dado uns pegas frenéticos em um ser que eu nunca vi na vida. E também não quero cuspir pudor na cara de ninguém.
Quero dar sonhos – vai um sonho aí?
Não quero me sentir confusa numa cidade que não quer ventar. Eu quero me sentir bem.
Não quero que pessoas se sintam mal por mim. Eu quero amá-las para sempre.
Não quero estas lágrimas nos olhos. Eu quero sorrisos.
Não quero precisar de ninguém para poder viver; mas implorei o perdão deles a noite inteira.
Quero ser livre; mas fui proibida de chorar debruçada na minha própria janela.
Eles dizem que ela foi feita para que eu veja o nascer do sol e ponto.
Quero ver o nascer do sol através da minha janela; mas há um muro cobrindo a paisagem.
Quero voar; mas não quero cair que nem merda no chão.
Barulho de liquidificador; alguém na cozinha prepara um suco.

● Vinho.

Moça: Olá Pierrot, como vais?


Pierrot: Desiludido.


Moça: Mas por que, amigo?


Pierrot: Pague-me uma bebida.


Moça: Preferes o vinho ou a cerveja?


Pierrot: O vinho tem gosto de romances arruinados.


Moça: Garçom traga-nos um bom vinho.


Pierrot: Meu coração é feito de dor, minha cara. Colombina partiu de mim. O seu gostar pertence a outro alguém. Tu sabes quem é este ser que levou o amor mais puro e cruel que já surgiu em minha vida?


Moça: Arlequim! Estou certa?


Pierrot: Ele mesmo.


Moça: Mas meu amigo, para uma historia de amor ser completa, ela precisa de lágrimas dolorosas. Onde há amor, há possibilidades cruéis. O amor só é “do bom”, se doer.


Pierrot: Sim. E às vezes essas possibilidades ficam restritas em apenas saudades.


Moça: Sua alma não deve pagar pela alma mesquinha de sua Colombina, meu caro. O amor que te dói, querendo ou não, é uma dádiva na sua vida.


Pierrot: Dádiva?


Moça: Sim. Seu nome ressoa nas mais belas músicas.


Pierrot: Nunca busquei esse resplendor, minha jovem. O que continuo a buscar, são os olhos de Colombina, aqueles olhos brilhantes que aquece o meu sangue. Amar é meu fim.


Moça: O teu fim é amar, Pierrot. A tua história continua aquecendo corações semelhantes ao teu.


Pierrot: Mais vinho!


Moça: Amigo, devo confessar-te que meu sentimento é exagerado, e meu coração é preguiçoso.


Pierrot: Fale-me sobre isso.


Moça: Ah, ele me conhece pelos ares do mundo, mas nunca me notou, Pierrot.


Pierrot: É simples. Faça-se notar!


Moça: Façamo-nos...


E eles saíram pelas ruas, bêbados, a cantarem músicas tristes para amores perdidos ou nunca encontrados.

● sem conserto.

Lágrimas estão chovendo em mim.

E o meu guarda-saudade continua quebrado...


● Dia dos mortos.

Fecho a janela. E daí que o quarto vai ficar abafado?. Não sei, mas sempre que a janela está aberta, tenho a impressão de estar sendo observada. Sem sentido. Sem beijos na boca. Sem palitos na caixa de fósforos. Vinte cigarros de menta. Deve ter algum isqueiro jogado nessa bagunça...
O silêncio está rouco de tanto gritar. Até aquele barulhinho que o vigilante noturno faz, somente hoje, ele seria bem-vindo. Eu também estou rouca, mas é de sentimentos e vícios mundanos. Vivendo e querendo sentir tudo até as ultimas conseqüências, sem tempo ou bom-mocismo para se arrepender dos erros nem sempre dolosos. Sabe, comprei essa euforia-hedonista no mercadinho da esquina, você pode dividir em até 3x sem juros. Apesar das sensações oscilantes, e da frágil independência existencial, sinto-me bem. Feliz e sorrindo. Até tentaram inculcar verdades mentirosas na minha cabeça a respeito de uma pessoa que me conhece melhor do que eu: Eu mesma. E no fim, eu pude rir de uma tentativa baldada e patética.
(Quebro o silêncio interior; recorro ao meu mp3: amigo inseparável; comprado friamente por alguns reais.) Depois do “socorro” frustrado que me ofereceram desnecessariamente e filhadaputamente, aprendi que é melhor cultivar mentiras que fazem cócegas, do que ter que aceitar a falsa verdade cuspida de pessoas insignificantes perante o meu sorrir, (E perante o hard rock que toca nas minhas emoções e reflete nas minhas botas sujas jogadas no chão.)
Agora penso em como eu queria uma grama para poder deitar. E penso também em parar de expor meus pensamentos íntimos em textos trash. O quarto está sendo asfixiado pela fumaça produzida por cinco cigarros.
Abro a janela.

ps: eu realmente gostaria que algumas pessoas estivessem respirando agora.



● O gato comeu.

O teclado faz uns barulhinhos medonhos: Tec. Tec. Tec. E eu penso numa folha de papel toda nua, esperando loucamente para ser possuída por palavras desavergonhadas. Na TV, eu assisto um paraplégico dando depoimentos sobre superação. A minha falta de sensibilidade momentânea pergunta: E o bambu? Passei alguns minutos observando um prato sujo em cima da pia. Como algo tão banal pode me soprar lembranças de uma forma tão severa? O tempo não volta, não pára e não me favorece. Mas há algo surpreendente no ombro de um novo rapaz. Ele se chama Bruno; e fui eu mesma quem inventou esse nome. Ele me faz feliz como nenhum outro Bruno; e fui eu mesma quem inventou isso também. É, essa realidade alternativa oferece valiosas experiências, e alguns sabores amargos de brinde. Tolas indagações. Tolas conclusões. Quero fugir pra dezembro...
No mesmo programa de TV , um cego está a contar vantagens por vender cachorro-quente na porta de sua casa. E o barulho tedioso do teclado permanece nesse Tec.Tec.Tec irritante. Cadê a paciência que estava aqui?

● Formigas.

A vida está passando rapidamente, e eu não consigo ver a singularidade dos dias. A magia foi embora. As bonecas estão empoeiradas em cima do armário. O super-homem é um boneco de borracha. Meu amiguinho imaginário pegou o trem das onze. E a Gretchen virou evangélica. Vamos tomar uma cerveja? Eu pago. Depois de alguns copos, sinto que posso livrá-lo de momentos meramente razoáveis. Em seguida, sentir-me-ei tão super quanto aquele boneco de borracha. E eu sei que isto me causará tonturas. Ei, eu tenho sonhos. E tenho vida. Aceito as condições que o mundo me impõe, por querer continuar fazendo parte dele. Assim como as formigas, que saem todos os dias em busca de folhinhas, eu também faço meus passeios diários. Sigo a procurar aquilo que nunca encontro.
Melhor ficar em casa. Aqui eu tenho folhinhas pro ano inteiro.

● Pensamentos feitos

Feito o passado que rir do futuro de um jeito sádico Feito uma criança que brincou como se fosse o último dia de sua vida sem saber o que é despedida Feito um livro de idade com folhas amareladas rejeitado por todos na biblioteca da Universidade Feito um poste inerte que além de segurar fios se diverte sendo banheiro público para cachorros de rua Feito o vento que levou o último pensamento Feito a esperança que me deu mais uma lembrança Feito com emoção mas sem pontuação

● É só um verbo.

Agarro-me em palavras sinceras, como um derrotado pelo verbo: viver, agarra-se em suas conquistas de outrora.

● Sem mais.


Realidade sensata é quando me sinto feliz vendo que seus lábios se deslocaram para um sorriso que enfeita a minha vida.

● Aviso

Mãe,

Fui procurar a felicidade lá fora.

Volto mais tarde, quando o sol nascer feliz.
Beijo!

● Identidade.

Você é uma árvore ou apenas um galho que alguém quebra?

● Aquela.

Eu sou aquela que vai chutando a mesma pedrinha pela calçada até chegar em casa. Aquela que pisa em cima da poça d’água por descuido, e rir do próprio desleixo. Aquela que procura estrelas perdidas num céu nublado. Aquela que percebe quando deixa um amor passar. Aquela que sente uma dorzinha no coração quando ouve uma música triste. Aquela que sente o cheiro bom da vida quando lê um belo poema. Aquela que não merece ser vista por olhos mentirosos. Aquela que ama as pessoas que falam sorrindo. Aquela que odeia dormir sozinha. Aquela que às vezes se perde no caminho, e nas palavras...

● Sou feliz, odeio Beatriz.

Vestia-se de uma forma estrambótica. Fugia de tendências. Vivia fora de padrões cada vez mais ordinários. Sentia-se satisfeito de ser quem ele era. Sua alma pertencia a alguma época esquecida por nós. Uma garota, daquelas forçadamente espontâneas da nova geração decadente, passou por ele e disse com ar de desdém "você sabe em qual século estamos?”, ela estava debochando das roupas daquele rapaz. Ele continuou sentado ali, a observar o nada que o céu oferecia. Possuía aquilo que algumas pessoas jamais terão: seu próprio caráter essencial e intransferível. Aproximei-me e perguntei quem ele era; olhou rapidamente em meus olhos e respondeu: “um infeliz que ama Beatriz”. Tive inveja de Beatriz; aquela filha da puta, tinha o amor daquele que me dizia tanto, sem nada dizer. Ele era bonito, do jeito exclusivo dele. Olheiras profundas, cabelos revoltados, cigarro na mão direita e um pensar alto para o alto. Os olhos dele eram de cor cinza; porque aqui, meu amigo, o filme é preto e branco.

● Zezinho, sai daqui.

Sabe quando você pára de amaldiçoar os casais felizes e apaixonados, e passa a ver beleza em tudo? E fica com aquela sensação de “faça o bem sem olhar a quem”? Pois é... Eu senti. Foi muito bom no início, mas depois começou a querer doer um pouco aqui dentro. Paixão para mim é coisa de masoquista imbecil. E pode até ser que um dia alguém me mude, e eu mude esse conceito parvo que insisto em fazer valer.

Conselho de miguxa: Não fume pessoas, fume cigarros... a nicotina é uma substância que entra e sai do seu corpo com mais facilidade do que o Zezinho da esquina...

● Depois eu digito um título aqui.

Eu não produzo arte. Se eu produzisse, ela seria feita de ilusões. Porém, eu consigo escrever. Minha arte, se me sobrasse competência, chegaria em forma de sonhos. Mas eu sou louca, e minhas palavras... ah, essas não têm educação, chegam de forma grosseira e inconveniente. Mas quem pode ser lúcido diante das agruras da merdosfera? A loucura sempre esteve e continuará por aí, para quem quiser ver, ouvir e espalhar. Os incas, por exemplo, imolavam seus próprios filhos no alto das montanhas, para os Deuses não deixarem o equilíbrio dos ciclos naturais se romper. Tudo bem, isso não me dá o direito de violentar a inofensiva beleza de um peixinho, e muito menos, degolar uma criança que confiou em mim, só para manter a minha “paz interior”. O que posso fazer? As opções são findas. As emoções são enfermas. O amor me desespera, o dinheiro me endivida, e meus amigos estão cansados. Eu poderia pedir minhas férias desse mundo tão moderno, cheio de troços tecnológicos que me causam tédio, mas eu gosto das paixões que encontro a cada esquina. A única graça que vejo na vida, é comer pessoas vivas. E pode ter certeza, eu não sou engraçada! Eu não durmo, só enlouqueço. Eu não amo, só finjo. Eu não penso, só acho. Eu penso que sou fraca, limitada, burra e impotente diante de sentimentos, aparentemente, inofensivos aos meus olhos; cada vez mais cansados. As bobagens saídas de minha mente, são culpa destes mesmos olhos cansados, que não enxergam nada, além de mais uma noite quente e calorosa, não de afeto, que fique bem claro. Sabe, meu cérebro me diz todos os dias que viverei para sempre, e acho que vivo essa ilusão o tempo todo, pois estou sempre deixando as coisas para depois. A vida deve ser isso mesmo, um ciclo vicioso de ilusões...

● luzes acesas, por favor!

Aprendi a enxergar o mundo. Atravessei a calçada, e vi um bêbado vagabundo. Bêbado não só de cachaça, mas também da vida. Ele poderia ter sido um homem que descobriu a felicidade sendo criança novamente. Poderia ter cantado as mais belas canções para a mulher que decidiu ser menina novamente. Mas ele se sentiu cansado. E hoje está sujo do mundo... Esperando que o sol olhe para ele e perceba sua existência perecível.
Cansado de esperar, ele puxa um ponto final de dentro do seu bolso. A escuridão levou sua razão...

● Bom dia, Outubro.

O mês de setembro...
Trouxe-me dias infiéis
Sobrevivi a eles
Bebendo em bordéis

No mês de setembro...
Falhei querendo acertar
Não pude ler
pensamentos
E coloquei aspas no meu pensar

O mês de setembro...
Tornou impotente
As tentativas frustradas de colorir
O preto e branco de minha mente

O mês de setembro...
quase acabou com o meu ego
pior do que isso
só escrevendo rimas baratas de boteco!

descanse em paz, Setembro ;*

● Masoquismo amoroso

- Você diz coisas estranhas...
- Você gosta de coisas estranhas?
- Sim.
- Você acha que o amor já surgiu entre a gente?
- Cara, o amor é só uma desculpa pare se machucar.
- Você gosta de machucar?
- Sim, eu gosto.
- Então me machuque.

● Qual o seu sonho?



- Ter uma sorveteria só pra mim.

O tempo passou, a resposta mudou... Porém, a essência continua. Ele ainda é feito de sonhos. Alimenta este velho hábito sem se importar se seus olhos estão abertos ou fechados. Traz a leveza da infância na mente, e as lembranças felizes que carrega, são suficientes para uma vida baseada na esperança - de sentimentos mais sinceros, por exemplo.

● 28 de setembro...

E ela ainda está presa a 28 de julho. Um dia de verdade, calmo e feliz. Um dia em que ela mordeu os lábios por impulso, e o tic nervoso de suas pernas deixou bem claro sua ansiedade – Ele ria. Um dia em que seus olhos, lábios e mãos pararam de desejar. E ela lembra, calmamente, de todos os detalhes... Do olhar tímido e apaixonado que enviava sem retorno. Dos olhos quase fanáticos que buscavam a qualquer preço, perceber a mímica daquele ser. Do sorriso feliz que se estabeleceu ali, no canto direito de sua boca, simplesmente, por conseguir perceber tais sinais. Sentiu-se feliz com tudo aquilo. Denominou-se piegas.
Era julho, final de férias. Eles falavam de Rolling Stones, caranguejos e amores de outrora. Teve vontade de chorar, ao ouvir o coração dele bater: “E se eu explodir dentro de minha felicidade?”. Pensava ela, bobamente, deitada sobre ele, com a cabeça posicionada estrategicamente para que seus ouvidos ficassem o mais perto possível do coração dele. Desejou estar ali para sempre. Denominou-se cafona.
Mal sabia ela, da dor que deixava a existência dele desconexa. E se soubesse, o que ela teria feito? Teria escrito uma carta com cheiro de sentimentalismo barato? Teria dançado com ele uma canção triste, e depois uma alegre? Teria dito “eu te amo” de forma “concreta” ? O fato é que, ela teria transformado aquela dor em toda a beleza que jamais existirá no mundo.
Sim, ela teria feito tudo isso, mas temeu por ela mesma. Denominou-se covarde.

● É...

O coração do filho da puta é pequeno e abafado.

● É quando cai a ficha...

Tem muitos amigos. Brinca com o maior número de pessoas possíveis. Sua filosofia de "mercado central", torna-o leve e despreocupado. Isso tudo, pode até deixá-lo cheio. Mas quando ele volta pra casa sozinho, e dorme em seu quarto escuro ouvindo a angústia de Morrissey, percebe que ser cheio demais, quer dizer vazio.

● Aurélio Poético

Azul: Da cor do céu sem nuvens com o Sol alto.

● Aurélio sacana

Trepar: Copular, ter coito carnal.

● Aurélio racista

Denegrir: Tornar(-se) negro ou escuro. Macular, manchar, difamar.

(grande espírito de negação sistemática.)

● O rapaz da praça

Por que ele chama tanto a minha atenção? A velha senhora o olha com olhos desconfiados. E ele olha o céu com um olhar vidrado e apaixonado. Vive nos bancos da praça, ou jogado no chão. Dorme de olhos abertos. Sonha com os olhos fechados. Ele é o que você despreza. Tem o semblante amargurado de rapaz jovem, e o olhar triste de quem sabe demais sobre o mundo. Meus olhos vibram diante de tanta intensidade. Sentada aqui nessa praça, espero o tempo passar. E o tempo passa... O tempo tem cheiro de mofo. O mesmo cheiro que têm as coisas que eu não uso mais. É estranho. Você vê algo que um dia foi seu objeto preferido, e descobre que o tempo é parceiro do vento. Um dia, ele sopra levando tais coisas para fora da sua vida, de seus pensamentos; e no outro, ele chega trazendo cheiros e lembranças...
O rapaz da praça acabou de pedir um cigarro, deu-me um sorriso como agradecimento. Ah, se todas as pessoas agradecessem com um sorriso tão marcante quanto o dele... Eu juro que não faltaria cigarro na minha bolsa.

● Compaixão?

Não.

Com paixão!

● Só nada.

- Raquel, vou na sorveteria... vai querer sorvete de quê?
- Sei lá, escolhe lá. (...)
- Que merda é essa preta?
- Açaí.
- E essa branca?
- Cupuaçu.
- É alguma homenagem ao Pará e suas frutas típicas?
- Mal-agradecida.

● Era só amor, minha gente.

O jovem rapaz apaixonado, esfaqueou até a morte o próprio romance, quando assumiu publicamente o seu amor. Não era uma ameaça de morte, e nem uma promessa de vida eterna...

● Farofeiros: Uni-vos.


Ontem fui a um restaurante, e pedi que a gentil garçonete preparasse uma quentinha. Chegando em casa, percebi que a farofa sempre vem num cantinho quase imperceptível, que não dá para nada. Por que, hein?

● Pontinho.

Ela flutuava no próprio pensar
E, o carinho dela tinha grandes pretensões.

Ele tinha um forte abraço desesperado
E parece que eles nunca mais vão se abraçar.

● ok?

Seguro minhas lágrimas... já que não posso segurar tuas mãos.

● Sentimentalismo de merda.

Minha mente anda trabalhando de forma errada. Há muitas perguntas sem respostas. A busca por certas respostas deve ser o que me impulsiona a acordar todos os dias. Lembro de pessoas que já fizeram parte da minha vida, umas até me fizeram sonhar, e paguei caro por cada sonho destruído. Ao lembrar de tais pessoas, minha sobrancelha direita levanta quase que instintivamente. Não tenho mágoa de nada, pelo contrário, sou grata, pois o amargo de minhas desilusões amorosas, deu-me de presente paisagens coloridas de tristeza, e muita beleza. A cada desilusão, uma herança – nem que esta seja apenas: saudade.

Descarga.

● Soldadinhos

Eu tinha algo mágico nas mãos. Tão delicados. Tão indefesos. Você os pegava, e eles saíam caminhando. Beleza inócua. Era lindo. É nostálgico. Passaram-se alguns anos, nunca mais vi nenhum. Aqueles que surgiam aos montes, aqueles que recebiam apelidos carinhosos, aqueles que sempre voltavam para brincar comigo, agora, fazem parte de uma memória em preto e branco. Foram engolidos pela realidade. Sem imaginação, sem a sinceridade que só possuímos quando somos crianças, os amigos imaginários vão embora (Ou somos nós quem os abandonamos?). É como se eles levassem a nossa inocência junto com eles... Tornamo-nos escravos dos costumes, do pudor, do medo, e até de nós mesmos. Somos espectros do que fomos um dia. Éramos completos. Hoje, troco maturidade por lembranças esquecidas. E se o mundo gritasse pelo meu nome outra vez, não o obedeceria. Ficaria com os soldadinhos, não deixaria que a pureza dos meus dias fosse embora junto com eles... Feito a água da chuva escorrendo em direção ao esgoto, sem ao menos deixar a terra molhada, e o cheiro que me traz a paz.

A vida fazia sentindo.

● "A morte do celular"

Ele caiu na poça, e eu ví ele definhar. Eu observei a luz do celular apagar e disse de forma tão espontânea, mas tão espontânea, que nem me lembro a última vez que fui tão espontâneo. Falei naquele tom de calma que só o desespero te dá, baixinho, simplesmente:

- Ai, cacete.


(Igor Prado)

● Luz nos olhos e Vênus na alma...

Hoje eu pude contemplar calmamente o sol, ele apareceu diferente, com dimensões enormes...
Não sei ao certo se o local onde eu estava contribuiu para que eu visse aquela bela imagem, mas havia algo mágico diante dos meus olhos. As nuvens se movimentavam quase que de propósito, como se abrissem às cortinas para o sol brilhar ainda mais.
Naquele momento, o meu possível sol ilusório queimava meus pensamentos, trazendo-me o calor necessário para a sobrevivência de minhas paixões. Pude me ver por inteira.
Completa? Ainda busco nas palavras algo novo para se dizer, e belo para se ouvir. Algo que invada meu cérebro, brinque com meus sentidos, despertando algum sentimento adormecido.
Incompleta? Tenho estrelas no meu céu, poluído de gente, mesmo assim, todo meu.

● Beijosmeliga?

Eu esperava ansiosamente por notícias, de quem ou sobre o que, até hoje eu não sei. Esperei por pedidos de desculpas, e por ligações sentimentalistas...
Trim-trim: A telemar avisa... tu.tu.tu.
Eu esperava por uma visita amistosa e sem grandes pretensões, alguém que batesse na minha porta e dissesse: “Oi, passei aqui só pra te dar um abraço”.
Din-don: - Quem é? – Correioooooo
Nem tudo estava perdido, ainda existia a possibilidade de uma carta: Banco do Brasil, Conta telefônica...
Tudo bem, certamente o consolo chegará por e-mail... Caixa de entrada. Uma mensagem não lida: Clique aqui e aumente seu pênis. Largada e assistindo Ana Maria Braga, vi-me entregue a decadência doméstica. Porém, eis que “Loosing my religion” do REM começa a tocar. É o meu celular! Começo uma “caça ao celular”. Achei! Estava debaixo do meu travesseiro. Alguém me mandara uma mensagem. Caixa de entrada. Uma mensagem não lida: Insira novos créditos. Totalmente jogada às traças, mergulhada no esquecimento alheio, resolvi sair de casa. Fui ao centro, debaixo de um sol escaldante. Talvez eu encontre alguém conhecido, que me diga o quanto sente minha falta. Então, eis que de repente, vejo alguém com os braços estendidos caminhando em minha direção. Um pequeno papel é lançado em minhas mãos: Irmã Janaína - Trago o amor da sua vida em 7 dias.

● Primeira pessoa

Eu implícito
Inundo o mundo
Com palavras explícitas

Quebro a noite
Com versos tortos
De uma alma torta
de maçã

Eu explícito

Inundo o mundo
Com palavras implícitas

Junto os pedaços da noite
Com versos para emanar
Uma alma torta
de maracujá

e um tanto de poesia...

● eu sei de COR

A

COR

DÁ...

de manhã.

● Parece que toda a tristeza do mundo se esconde nas segundas-feiras...

Eu lembro da sensação que a expectativa de reencontrá-lo me causava, era uma saudade presa, um orgulho domado e uma vontade absurda de recuperar aquilo que eu havia, inconscientemente, jogado fora. Ele nunca soube o quanto eu me importava...
Lembro do dia em que ele disse que eu era “alguém para seguir em frente... para olhar o horizonte”, e a tristeza que senti no dia em que ele disse que eu não era mais esse alguém. A gente diz tanta coisa, né? Eu, apenas fiz uma piada sem graça, como de praxe, e agradeci pela sinceridade – com um sorriso forçado de “está tudo bem”. Ninguém nunca soube, mas naquele dia eu chorei lágrimas amargas de tristeza a noite toda. E pela milésima vez, eu deixara escapar mais uma tentativa de felicidade. Tentei negar, tentei desmerecê-lo, mas no fundo eu sempre soube que ele era mesmo “tudo aquilo que me faltava”. É dês-esperançoso acordar sem um horizonte para seguir em frente, mas é maravilhoso lembrar que um dia eu o encontrei em uma destas ruas solitárias que formam a nossa vida breve...

● Amor x dor

● até sempre!


(25/07/ 2007)

Angie - Rolling Stones

● sem título

Será que preciso realmente escrever para me sentir livre? Eu poderia falar do vazio que sinto agora. Mas não é uma boa idéia. Esse vazio ecoaria... e não me faria bem. Então, vou falar apenas de SAUDADE. E não é aquele tipo de saudade que se resolve correndo até o telefone... só quem já sentiu o peito apertar e o choro explodir em soluços infantis, saberá do que estou dizendo...
É uma saudade sem lei... de força arbitrária. E ela permanece aqui dentro de mim, sólida e irônica, porque de certa forma, ela me deixa feliz, por ter vivido aquilo que ela me obriga a recordar...


● Ocupado

A vida está passando lá fora rapidamente. Vou continuar trancada aqui, com esse cheirinho de sabonete, e a água refrescando minha mente. Vou ficar aqui para sempre, despida de pessoas, do mundo e de tudo! Não existe mais ninguém. Eu e eu mesma, vivemos felizes com uma sensação de unicidade.

- Toc. Toc. Toc.

- Tem geeeente!

● Em: 4 de janeiro de 2007.

Voltou a chover na cidade dos sonhos, minha janela amanheceu embaçada, a chuva cai lá fora, embebendo meus mundos de água. O cheiro da chuva passa por mim, domina o ar, sobrepujando sentimentos inanimados. Reconheço todos os odores, até o da insegurança, instruindo-me a desacreditar em promessas de abrigo e de paz. O cheiro da saudade, que machuca corações distantes, e acaricia pelo amor existente. Respirando, resignando e inventando saudades, sorvendo primeiros beijos, com gostinho gelado de chocolate. Açambarcando pessoas, nuvens e estrelas para o céu do meu mundo externo. Pessoas para compartilhar sentimentos, nuvens para depositar sonhos, e estrelas para dividir segredos. Depois que conheci as transcendências metafísicas do mundo físico, pude sentir a poesia do vento, do sol, da chuva...


● não esqueça:

Liberdade é esquecer.

● Camelô


Vendo sentimentos bem baratinhos.
Camelôs vendem coisas bem baratinhas.
Logo, sou um camelô de sentimentos?

● Dolo emocional

Rabisco suas lembranças, sorrindo e acreditando
Na minha sorte herege
Nos meus sonhos incompletos e apagados

Minto para ofuscar minhas esperanças
E desminto com um sorriso
para lavar meu rosto sujo de tristeza

Pelo meu desamor mais amado
Durmo uma noite mal vivida de sonhos
E esqueço da dor de ter que esquecer